Essa piada contada pelo polêmico Slavoj Zizek é interessante, entre outros aspectos, para trazer a tona a reflexão sobre a possibilidade ou impossibilidade de expressar certos descontentamentos:
'Numa velha piada da Republica Democrática Alemã, um trabalhador alemão arruma um emprego na sibéria; e ciente de que toda sua correspondência será lida por censores, diz aos amigos: "Vamos estabelecer um código: se uma carta que eu lhes enviar estiver escrita em azul, o conteúdo é verdadeiro; se estiver escrita em tinta vermelha, o conteúdo é mentira." Após um mês seus amigos recebem a primeira carta, escrita inteiramente em azul: "Tudo é maravilhoso aqui: as lojas estão tem estoques fartos, a comida é abundante, os apartamentos são grandes e adequadamente aquecidos, os cinemas mostram filmes ocidentais, há muitas garotas bonitas dispostas a um affair- a única coisa que não é possível encontrar é tinta vermelha"'. (do livro "Bem vindo ao deserto do real")
Ao ler, me pergunto, em que âmbitos da vida temos ou não temos tinta vermelha?
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
domingo, 8 de setembro de 2013
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Sobre contar histórias: breve digressão de Bauman
O trecho que se segue é uma breve e divertida reflexão de Bauman, denominada "sobre contar histórias", pode ser encontrada no livro Vidas Desperdiçadas (2005, 1º ed., Editora Jorge Zahar, p.26).
"Histórias são como holofotes e refletores - iluminam partes do palco enquanto deixam o resto na escuridão. Se iluminassem igualmente o palco todo, de fato não teriam utilidade. Sua tarefa, afinal, é "limpar" o palco, preparando-o para o consumo visual e intelectual dos espectadores; criar um quadro que se possa absorver, compreender e reter, destacando-o da anarquia de borrões e manchas que não se podem assimilar e que não fazem sentido.
As histórias ajudam as pessoas em busca do entendimento, separando o relevante do irrelevante, as ações de seus ambientes, a trama de seus antecedentes e os heróis ou vilões que se encontram no centro do roteiro das hostes de excedentes e simulacros. É missão das histórias selecionar, e é de sua natureza incluir excluindo e iluminar lançando sombras. É um grave equívoco, além de uma injustiça, culpar as histórias por favorecerem uma parte do palco e negligenciarem outra. Sem seleção não haveria história. Dizer que "esta seria uma ótima história se não omitisse isto ou aquilo" é o mesmo que afirmar que "estas janelas seriam ótimas para podermos ver através das paredes se não fossem emolduradas e separadas pelas próprias paredes que estão entre elas".
Como que antecipando o iminente repúdio das esperanças enganosas da modernidade, Jorge Luis Borges escreveu a história de Ireneo Funes, que quando menino caiu do cavalo e ficou aleijado, "virtualmente incapaz de idéias gerais, platônicas" (ou seja, de abstração: de colocar em foco alguns aspectos do que via, deixando o resto de fora). Em vez disso, ele era capaz de (forçado a!) perceber "cada uva que foi esmagada para produzir o vinho e todas as gavinhas e caules do vinhedo" onde você e eu, "com uma rápida olhada", "percebemos três taças de vinho sobre a mesa". Duas ou três vezes, Funes "reconstruiu um dia inteiro" sem errar ou se equivocar uma vez sequer, "mas cada reconstrução levou, por sua vez, um dia inteiro". Tendo descoberto não apenas que a tarefa que se impusera era interminável, mas que a própria idéia dessa tarefa não fazia sentido, Funes se queixou: "Minha memória, senhor, é como um monte de lixo." Tendo explorado o curso e as bênçãos da ignorância, Milan Kundera concorda: "Se alguém pudesse reter na memória tudo aquilo que vivenciou, se pudesse num dado momento recuperar qualquer fragmento do seu passado, esse alguém não seria absolutamente humano; seus amores, amizades, raivas, sua capacidade de esquecer ou de vingar-se -nenhum deles se pareceria com os nossos." E Kundera nos adverte que não entenderemos coisa alguma sobre a vida humana se negarmos que em algum momento dessa vida "uma realidade não é mais o que era quando era - não pode ser reconstruída".
Escondendo-se por trás de um misterioso escritor medieval de nome Suarez Miranda, Borges escreveu sobre um império onde "a Arte da Cartografia atingiu tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Irracionais deixaram de ser satisfatórios, e a Associação dos Cartógrafos desenhou um mapa do Império cujo tamanho era o Império, e que coincidia ponto a ponto com ele".' Pena que o último mapa tenha sido considerado inútil por seus usuários, e assim "deixado à inclemência do Sol e dos Invernos", de modo que apenas "Frangalhos Esfarrapados desse Mapa, habitado por Animais e Mendigos", permaneceram..."
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
"Histórias são como holofotes e refletores - iluminam partes do palco enquanto deixam o resto na escuridão. Se iluminassem igualmente o palco todo, de fato não teriam utilidade. Sua tarefa, afinal, é "limpar" o palco, preparando-o para o consumo visual e intelectual dos espectadores; criar um quadro que se possa absorver, compreender e reter, destacando-o da anarquia de borrões e manchas que não se podem assimilar e que não fazem sentido.
As histórias ajudam as pessoas em busca do entendimento, separando o relevante do irrelevante, as ações de seus ambientes, a trama de seus antecedentes e os heróis ou vilões que se encontram no centro do roteiro das hostes de excedentes e simulacros. É missão das histórias selecionar, e é de sua natureza incluir excluindo e iluminar lançando sombras. É um grave equívoco, além de uma injustiça, culpar as histórias por favorecerem uma parte do palco e negligenciarem outra. Sem seleção não haveria história. Dizer que "esta seria uma ótima história se não omitisse isto ou aquilo" é o mesmo que afirmar que "estas janelas seriam ótimas para podermos ver através das paredes se não fossem emolduradas e separadas pelas próprias paredes que estão entre elas".
Como que antecipando o iminente repúdio das esperanças enganosas da modernidade, Jorge Luis Borges escreveu a história de Ireneo Funes, que quando menino caiu do cavalo e ficou aleijado, "virtualmente incapaz de idéias gerais, platônicas" (ou seja, de abstração: de colocar em foco alguns aspectos do que via, deixando o resto de fora). Em vez disso, ele era capaz de (forçado a!) perceber "cada uva que foi esmagada para produzir o vinho e todas as gavinhas e caules do vinhedo" onde você e eu, "com uma rápida olhada", "percebemos três taças de vinho sobre a mesa". Duas ou três vezes, Funes "reconstruiu um dia inteiro" sem errar ou se equivocar uma vez sequer, "mas cada reconstrução levou, por sua vez, um dia inteiro". Tendo descoberto não apenas que a tarefa que se impusera era interminável, mas que a própria idéia dessa tarefa não fazia sentido, Funes se queixou: "Minha memória, senhor, é como um monte de lixo." Tendo explorado o curso e as bênçãos da ignorância, Milan Kundera concorda: "Se alguém pudesse reter na memória tudo aquilo que vivenciou, se pudesse num dado momento recuperar qualquer fragmento do seu passado, esse alguém não seria absolutamente humano; seus amores, amizades, raivas, sua capacidade de esquecer ou de vingar-se -nenhum deles se pareceria com os nossos." E Kundera nos adverte que não entenderemos coisa alguma sobre a vida humana se negarmos que em algum momento dessa vida "uma realidade não é mais o que era quando era - não pode ser reconstruída".
Escondendo-se por trás de um misterioso escritor medieval de nome Suarez Miranda, Borges escreveu sobre um império onde "a Arte da Cartografia atingiu tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Irracionais deixaram de ser satisfatórios, e a Associação dos Cartógrafos desenhou um mapa do Império cujo tamanho era o Império, e que coincidia ponto a ponto com ele".' Pena que o último mapa tenha sido considerado inútil por seus usuários, e assim "deixado à inclemência do Sol e dos Invernos", de modo que apenas "Frangalhos Esfarrapados desse Mapa, habitado por Animais e Mendigos", permaneceram..."
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
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