domingo, 8 de setembro de 2013

Piada de Zizek sobre liberdade de expressão.

Essa piada contada pelo polêmico Slavoj Zizek é interessante, entre outros aspectos, para trazer a tona a reflexão sobre a possibilidade ou impossibilidade de expressar certos descontentamentos:

'Numa velha piada da Republica Democrática Alemã, um trabalhador alemão arruma um emprego na sibéria; e ciente de que toda sua correspondência será lida por censores, diz aos amigos: "Vamos estabelecer um código: se uma carta que eu lhes enviar estiver escrita em azul, o conteúdo é verdadeiro; se estiver escrita em tinta vermelha, o conteúdo é mentira." Após um mês seus amigos recebem a primeira carta, escrita inteiramente em azul: "Tudo é maravilhoso aqui: as lojas estão tem estoques fartos, a comida é abundante, os apartamentos são grandes e adequadamente aquecidos, os cinemas mostram filmes ocidentais, há muitas garotas bonitas dispostas a um affair- a única coisa que não é possível encontrar é tinta vermelha"'. (do livro "Bem vindo ao deserto do real")

Ao ler, me pergunto, em que âmbitos da vida temos ou não temos tinta vermelha?

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sobre contar histórias: breve digressão de Bauman

O trecho que se segue é uma breve e divertida  reflexão de Bauman, denominada "sobre contar histórias", pode ser encontrada no livro Vidas Desperdiçadas (2005, 1º ed., Editora Jorge Zahar, p.26).

"Histórias são como holofotes e refletores - iluminam partes do palco enquanto deixam o resto na escuridão. Se iluminassem igualmente o palco todo, de fato não teriam utilidade. Sua tarefa, afinal, é "limpar" o palco, preparando-o para o consumo visual e intelectual dos espectadores; criar um quadro que se possa absorver, compreender e reter, destacando-o da anarquia de borrões e manchas que não se podem assimilar e que não fazem sentido.

As histórias ajudam as pessoas em busca do entendimento, separando o relevante do irrelevante, as ações de seus ambientes, a trama de seus antecedentes e os heróis ou vilões que se encontram no centro do roteiro das hostes de excedentes e simulacros. É missão das histórias selecionar, e é de sua natureza incluir excluindo e iluminar lançando sombras. É um grave equívoco, além de uma injustiça, culpar as histórias por favorecerem uma parte do palco e negligenciarem outra. Sem seleção não haveria história. Dizer que "esta seria uma ótima história se não omitisse isto ou aquilo" é o mesmo que afirmar que "estas janelas seriam ótimas para podermos ver através das paredes se não fossem emolduradas e separadas pelas próprias paredes que estão entre elas".

Como que antecipando o iminente repúdio das esperanças enganosas da modernidade, Jorge Luis Borges escreveu a história de Ireneo Funes, que quando menino caiu do cavalo e ficou aleijado, "virtualmente incapaz de idéias gerais, platônicas" (ou seja, de abstração: de colocar em foco alguns aspectos do que via, deixando o resto de fora). Em vez disso, ele era capaz de (forçado a!) perceber "cada uva que foi esmagada para produzir o vinho e todas as gavinhas e caules do vinhedo" onde você e eu, "com uma rápida olhada", "percebemos três taças de vinho sobre a mesa". Duas ou três vezes, Funes "reconstruiu um dia inteiro" sem errar ou se equivocar uma vez sequer, "mas cada reconstrução levou, por sua vez, um dia inteiro". Tendo descoberto não apenas que a tarefa que se impusera era interminável, mas que a própria idéia dessa tarefa não fazia sentido, Funes se queixou: "Minha memória, senhor, é como um monte de lixo." Tendo explorado o curso e as bênçãos da ignorância, Milan Kundera concorda: "Se alguém pudesse reter na memória tudo aquilo que vivenciou, se pudesse num dado momento recuperar qualquer fragmento do seu passado, esse alguém não seria absolutamente humano; seus amores, amizades, raivas, sua capacidade de esquecer ou de vingar-se -nenhum deles se pareceria com os nossos." E Kundera nos adverte que não entenderemos coisa alguma sobre a vida humana se negarmos que em algum momento dessa vida "uma realidade não é mais o que era quando era - não pode ser reconstruída".

Escondendo-se por trás de um misterioso escritor medieval de nome Suarez Miranda, Borges escreveu sobre um império onde "a Arte da Cartografia atingiu tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Irracionais deixaram de ser satisfatórios, e a Associação dos Cartógrafos desenhou um mapa do Império cujo tamanho era o Império, e que coincidia ponto a ponto com ele".' Pena que o último mapa tenha sido considerado inútil por seus usuários, e assim "deixado à inclemência do Sol e dos Invernos", de modo que apenas "Frangalhos Esfarrapados desse Mapa, habitado por Animais e Mendigos", permaneceram..."


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Neve rosa: um conto sobre intolerância

Dizem que na Rússia, adolescentes gays estavam sendo agredidos por grupos homofóbicos. Quando identificavam um garoto ou garota gay, os tais grupos o cercavam, insultavam, traziam urina e fezes em recipientes e despejavam sobre suas cabeças. Outras vezes os agrediam fisicamente: socos, ponta pés, pancadas com pedaços de pau. Alguns diziam que houve até casos em que apertaram-lhes os mamilos com alicates. Foi nessa época que Omar migrou para a Rússia.

Omar era filho de pai francês e mãe paquistanesa, passara parte de sua infância migrando entre vários países. Vivera muitos anos no oriente médio, alguns na Europa. Sempre se admirou com a forma como alguns de seus colegas estavam dispostos a entregar suas vidas pelo que acreditavam, uns pacificamente, outros nem tanto.

Viveu sua vida toda de um país a outro, sem qualquer autonomia nessas escolhas, mesmo seus pais eram obrigados a mudar de país por conta de suas profissões, jamais lhes permitiam escolher. Omar não conseguiu fazer amigos por longo prazo, nunca conseguia se sentir aceito, era estrangeiro onde quer que estivesse. Mesmo quando passou uns poucos anos no país em que nasceu não compreendia a cultura dali, não era aceito, não era visto como um igual. Não sabia quem era, não sabia a quem chamar de “seus”. Tinha apenas a seu pai e sua mãe que estavam constantemente ocupados. Mais dia, menos dia, lá estava ele novamente numa nova sala de aula onde não compreendia sequer o idioma que o cercava. O espreitavam, riam-se de suas roupas, riam-se de sua postura, faziam chacotas de seus mais profundos sentimentos, incomodavam-no e sequer o deixavam quieto quando buscava isolamento.

No tempo em que esteve na Europa aprendeu algumas coisas. Encontrou um ou outro amigo com quem podia agir naturalmente. Descobriu que ocasiões em que não precisava fingir ser o que não era, não precisava controlar obcessivamente cada um de seus gestos para que não parecessem femininos. Descobriu que não era responsável pelo tipo de atração sexual que sentia ou deixava de sentir.  Mas durou muito pouco. Sem direito a réplica, lá estava Omar, numa sala fria, roupas para suportar a neve, cercado de colegas a quem mais uma vez não conseguia se integrar.


Rússia. Lá mais uma vez o rotularam, onde quer que entrasse, com ele ia uma placa invisível da qual todos faziam chacota, a placa dizia “Omar é gay”. Dia após dia sofria agressões, até o dia em que decidiu por um fim nisso. Era uma segunda-feira cinza. Omar sabia que um grupo o esperava sair da escola para agredi-lo. Naquele dia não estava nervoso, caminhara solenemente até a praça onde pegava o ônibus. Foi ali que o cercaram. Omar recebeu todos com um sorriso. Convidava aqueles entre os passantes abertamente para sua festa, gritava a todos os cantos “Venham me agredir, afinal eu sou gay”. Após uns 5 minutos de alarde, entre alguns empurrões e ponta pés, havia aglomerado aproximadamente 30 adolescentes ao seu redor, todos o insultando. Foi ali, na parte mais alta da praça, o chão recoberto de neve, que Omar proferiu seu veredito. Omar gritou alto. Disse-lhes: a vocês, ícones da intolerância, eu brindo com sua tão aclamada intolerância. Retirou de seu bolso um dispositivo pequeno com um botão no meio, abriu a camisa e lá estava um colete carregado de dinamites. Omar apertou o botão.  Por muitos dias os que passavam pela praça viam apenas a neve rosa e choravam descontroladamente.

[Conto fictício escrito por mim tendo em vista as recentes manifestações de homofobia na Rússia]

domingo, 28 de julho de 2013

Drummond - A morte a cavalo

A morte a cavalo
(Carlos Drummond de Andrade)
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus amores.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
(Guardo aqui no blog para ficar fácil reler, este poema que ouvi pela primeira vez numa apresentação da Igreja Betesda, na ocasião recitado pelo Ricardo Gondim.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Manuel de Barros - Alguns trechos

Tenho um livro completamente inútil intitulado "Poesia Completa" que ajunta muitas publicações poéticas do Manuel de Barros, só digo "completamente inútil" pela plena certeza de que ao autor nunca foi elogio ser útil. Abro o livro de tempos em tempos e tenho o inútil prazer de saborear algumas frases e trechos, compartilho alguns:

"Um monge descabelado me disse no caminho: 'Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado."

"Tudo que não invento é falso."

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."

"Tem mais presença em mim o que me falta."

"Melhor jeito que achei de me conhecer foi fazendo o contrário."

"Não saio de dentro de mim nem pra pescar."

"Eu queria ser lido pelas pedras."

"Aonde eu não estou as palavras me acham."

"Escrevo o idioleto manoelês archaico (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade - uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão."


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uma anedota sobre conhecer as regras do jogo

Essa anedota, é interessante para pensar em como, mesmo quando as regras são injustas, o conhecimento delas permite certa resistência.

"    Por razões que não saberíamos explicar,(...) um jovem chamado Hassan encontrou-se diante da possibilidade de se casar com a filha única de um sultão.
     Para que o casamento pudesse acontecer (...) era necessário escolher entre dois pedaços de papel dobrado. Num deles estava escrita a palavra 'vida'- e, nesse caso, o casamento seria consumado - no outro estava escrita a palavra 'morte' - e, nesse caso, o pretendente teria a cabeça imediatamente cortada.
Apesar desse acordo o sultão sentia-se amofinado. Ele dizia 'Existe uma chance em duas de que eu perca minha filha e também parte da minha fortuna a favor de um pobretão desconhecido'.(...)
     Ele resolveu compartilhar sua preocupação com seu grão-vizir, (...) que o aconselhou a (...) escrever a palavra 'morte' nos dois papeis. (...)
     Hassan (...) refletiu sobre a proposta do sultão e previu, de alguma maneira, a armadilha que o esperava.
     Quando o dia da escolha chegou, ele entrou sorridente na sala onde era esperado pelo sultão, pelo grão-vizir, por toda a corte e também por um carrasco armado de um grande sabre, que repousava sobre um cepo.
     Hassan avançou, Um serviçal apresentou-lhe os dois pedaços de papel dobrado. Sem hesitar um só instante, ele pegou um dos papéis, enrolou-o com os dedos, colocou-o na boca e o engoliu.
     -O que você está fazendo - exclamou o sultão. (...)
     -Fiz minha escolha - respondeu Hassan - e a engoli. Se você quiser saber meu destino abra o segundo papel.
     O segundo papel naturalmente trazia escrita a palavra 'morte'. Portanto, iria-se deduzir que Hassan havia escolhido e engolido a 'vida'. O sultão não poderia senão lhe oferecer, assim a mão da filha." (Anetoda extraída do livro Contos Filosóficos do mundo inteiro, de Jean-Claude Carrière, p.227)


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

Histórias, anedotas e prazer de descobrir

É gostoso ouvir quem conta histórias ou estórias.
Elas tem algo de mágico, estão além do controle de quem as conta.
Muitos dizem que as narrativas são o gênero mais antigo, talvez tão velho quanto a própria humanidade.

Discutir um assunto recheando-o com anedotas, experiências e parábolas é sempre mais vivo e gostoso que discutir um tema abstrato. Ouvir um filósofo que discute apenas de forma abstrata é cansativo, é como acompanhar a solução de uma equação matemática, quando é possível rechear seus pensamentos com narrativas a coisa se torna mais palpável, é parecido com o caso em que conseguimos transitar entre a equação o fenômeno a que ela se refere, a equação da velocidade e o carro que percorre a distância.

Sobre o este blog

Este blog não tem um tema fixo, não tem um objetivo, não tem utilidade, ele será mantido para simples deleite do autor, sem qualquer pretensão de ser lido, de ter grande número de leitores ou coisas do tipo.

Pretendo compartilhar aqui textos meus ou por mim apreciados, entre eles tenho em mente alguns: contos, fábulas, crônicas, poesias, reflexões, conceitos filosóficos.

Obviamente algumas temáticas tenderão a emergir, uma vez que passeio mais por elas, a saber: psicologia, sociedade, vida, religião, existência.

Aos amados curiosos explico o nome do blog, mas antes fica meu elogio a estes que conseguiram manter ou recuperar a alegria e o prazer de descobrir que todos tínhamos na infância ao perguntar nossos infinitos "Por quês"...

O nome Equilibrista ou Falta tanto é meio esquisito, meio confuso, e além disso um nome duplo (meios e duplos soa um tanto matemático mas não foi a intenção, foi "sem querer querendo").

Equilibrista se refere a um sentimento de que a vida no nosso tempo se tornou quase impossível de equilibrar, entre tanto que se espera e exige de todos, aqueles que conseguem se manter saudáveis muitas vezes parecem aquele típico personagem de circo caminhando sobre um corda a muitos metros de altura com inúmeras tranqueiras penduradas por todos os lados.

Falta tanto complementa essa ideia, apontando que apesar das inúmeras tranqueiras que levamos nesse equilibrismo, a maioria delas não parecem colaborar com nossa alegria.