domingo, 28 de julho de 2013

Drummond - A morte a cavalo

A morte a cavalo
(Carlos Drummond de Andrade)
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus amores.
A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.
A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.
A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope
me deixou sobrante e oco.
(Guardo aqui no blog para ficar fácil reler, este poema que ouvi pela primeira vez numa apresentação da Igreja Betesda, na ocasião recitado pelo Ricardo Gondim.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Manuel de Barros - Alguns trechos

Tenho um livro completamente inútil intitulado "Poesia Completa" que ajunta muitas publicações poéticas do Manuel de Barros, só digo "completamente inútil" pela plena certeza de que ao autor nunca foi elogio ser útil. Abro o livro de tempos em tempos e tenho o inútil prazer de saborear algumas frases e trechos, compartilho alguns:

"Um monge descabelado me disse no caminho: 'Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado."

"Tudo que não invento é falso."

"Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira."

"Tem mais presença em mim o que me falta."

"Melhor jeito que achei de me conhecer foi fazendo o contrário."

"Não saio de dentro de mim nem pra pescar."

"Eu queria ser lido pelas pedras."

"Aonde eu não estou as palavras me acham."

"Escrevo o idioleto manoelês archaico (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade - uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão."


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Uma anedota sobre conhecer as regras do jogo

Essa anedota, é interessante para pensar em como, mesmo quando as regras são injustas, o conhecimento delas permite certa resistência.

"    Por razões que não saberíamos explicar,(...) um jovem chamado Hassan encontrou-se diante da possibilidade de se casar com a filha única de um sultão.
     Para que o casamento pudesse acontecer (...) era necessário escolher entre dois pedaços de papel dobrado. Num deles estava escrita a palavra 'vida'- e, nesse caso, o casamento seria consumado - no outro estava escrita a palavra 'morte' - e, nesse caso, o pretendente teria a cabeça imediatamente cortada.
Apesar desse acordo o sultão sentia-se amofinado. Ele dizia 'Existe uma chance em duas de que eu perca minha filha e também parte da minha fortuna a favor de um pobretão desconhecido'.(...)
     Ele resolveu compartilhar sua preocupação com seu grão-vizir, (...) que o aconselhou a (...) escrever a palavra 'morte' nos dois papeis. (...)
     Hassan (...) refletiu sobre a proposta do sultão e previu, de alguma maneira, a armadilha que o esperava.
     Quando o dia da escolha chegou, ele entrou sorridente na sala onde era esperado pelo sultão, pelo grão-vizir, por toda a corte e também por um carrasco armado de um grande sabre, que repousava sobre um cepo.
     Hassan avançou, Um serviçal apresentou-lhe os dois pedaços de papel dobrado. Sem hesitar um só instante, ele pegou um dos papéis, enrolou-o com os dedos, colocou-o na boca e o engoliu.
     -O que você está fazendo - exclamou o sultão. (...)
     -Fiz minha escolha - respondeu Hassan - e a engoli. Se você quiser saber meu destino abra o segundo papel.
     O segundo papel naturalmente trazia escrita a palavra 'morte'. Portanto, iria-se deduzir que Hassan havia escolhido e engolido a 'vida'. O sultão não poderia senão lhe oferecer, assim a mão da filha." (Anetoda extraída do livro Contos Filosóficos do mundo inteiro, de Jean-Claude Carrière, p.227)


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

Histórias, anedotas e prazer de descobrir

É gostoso ouvir quem conta histórias ou estórias.
Elas tem algo de mágico, estão além do controle de quem as conta.
Muitos dizem que as narrativas são o gênero mais antigo, talvez tão velho quanto a própria humanidade.

Discutir um assunto recheando-o com anedotas, experiências e parábolas é sempre mais vivo e gostoso que discutir um tema abstrato. Ouvir um filósofo que discute apenas de forma abstrata é cansativo, é como acompanhar a solução de uma equação matemática, quando é possível rechear seus pensamentos com narrativas a coisa se torna mais palpável, é parecido com o caso em que conseguimos transitar entre a equação o fenômeno a que ela se refere, a equação da velocidade e o carro que percorre a distância.

Sobre o este blog

Este blog não tem um tema fixo, não tem um objetivo, não tem utilidade, ele será mantido para simples deleite do autor, sem qualquer pretensão de ser lido, de ter grande número de leitores ou coisas do tipo.

Pretendo compartilhar aqui textos meus ou por mim apreciados, entre eles tenho em mente alguns: contos, fábulas, crônicas, poesias, reflexões, conceitos filosóficos.

Obviamente algumas temáticas tenderão a emergir, uma vez que passeio mais por elas, a saber: psicologia, sociedade, vida, religião, existência.

Aos amados curiosos explico o nome do blog, mas antes fica meu elogio a estes que conseguiram manter ou recuperar a alegria e o prazer de descobrir que todos tínhamos na infância ao perguntar nossos infinitos "Por quês"...

O nome Equilibrista ou Falta tanto é meio esquisito, meio confuso, e além disso um nome duplo (meios e duplos soa um tanto matemático mas não foi a intenção, foi "sem querer querendo").

Equilibrista se refere a um sentimento de que a vida no nosso tempo se tornou quase impossível de equilibrar, entre tanto que se espera e exige de todos, aqueles que conseguem se manter saudáveis muitas vezes parecem aquele típico personagem de circo caminhando sobre um corda a muitos metros de altura com inúmeras tranqueiras penduradas por todos os lados.

Falta tanto complementa essa ideia, apontando que apesar das inúmeras tranqueiras que levamos nesse equilibrismo, a maioria delas não parecem colaborar com nossa alegria.