segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu sei que não sou um grão de milho - Anedota contada por Zizek

Mais uma piada muito interessante do ponto de vista reflexivo contada por Zizek em seu livro Como ler lacan (2006, p.115). Segue:

"Um homem que acredita ser um grão de milho* é levado para um hospital psiquiátrico onde os médicos fazem o que podem para convencê-lo de que ele não é um grão de milho, mas um homem. Quando ele está curado (convencido de que não é um grão de milho, mas um homem) e lhe permitem deixar o hospital, imediatamente volta tremendo. Há uma galinha perto da porta e ele tem medo de que ela vá comê-lo. 'Meu caro rapaz", diz o médico, 'você sabe muito bem que não é um grão de milho, mas um homem'. 'Claro que eu sei disso", responde o paciente, 'mas a galinha sabe?'"

*Na tradução original que consultei consta "grão de semente", mas optei por substituir por "grão de milho".


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

O psicólogo e o jacaré - uma anedota contada por Wanderley Codo

"Um cliente chega à clínica do psicólogo se dizendo impossibilitado de dormir.
- É que há um jacaré embaixo da minha cama, doutor, pronto para me engolir assim que eu fechar os olhos.
O diagnóstico foi rápido, paranóia; o tratamento começou logo. Meses depois é a esposa daquele cliente que chama ao telefone:
- Doutor, pode desmarcar a consulta que meu marido tem hoje, ele não irá mais.
- Conseguiu dormir? Não pensa mais em um jacaré a perseguí-lo?
- Não, o senhor o convenceu que o jacaré não existia, ele dormiu e o jacaré o comeu."

Anedota extraída do livro O trabalho enlouquece: um enconrto entre a clínica e o trabalho, organizado por Wanderley Codo, (p. 7, Vozes, ed. 2004)

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um milhão de dólares e a morte de um desconhecido

Em momentos em que nossas escolhas cada vez mais influenciam e impactam na vida de mais pessoas, distantes ou próximas, e em que as escolhas delas influenciam em nossas, essa pequena estória é um ponto interessante de reflexão.

"Um estranho usando um sobretudo aparece a porta e propõe um acordo ao homem que ali mora.
'Aqui está uma caixa com um único botão. Tudo o que você tem a fazer é apertar o botão e eu lhe pagarei 1 milhão* de dólares'
'O que acontece quando eu aperto o botão?' pergunta o homem.
O estranho lhe responde ‘Quando você aperta o botão, alguém muito longe, alguém que você não conhece, irá morrer."
O homem sofre um pouco com o dilema moral durante a noite.
O botão permanece na mesa da cozinha. Ele olha para o botão. Anda em círculos. O suor escorre por sua testa. Finalmente, após dar se conta de sua situação financeira desesperadora, toma coragem e aperta o botão. Nada acontece. Tudo está quieto, numa espécie de anti-clímax. Alguém bate a porta. O estranho lá está em seu sobretudo, ele entrega ao homem o dinheiro e pega a caixa com o botão.
'Espere' grita o homem. 'O que acontece agora?'
O estranho diz-lhe 'Agora eu levo a caixa e entrego para a próxima pessoa. Alguém muito longe, algúem que não conhece você.'"
Trecho traduzido de Incognito: The Secret Lives of the Brain  (2011), livro de David Eagleman.

Aos que gostarem da reflexão, recomendo também o livro "Living high and letting die" de Peter K. Unger. 

* Troquei o valor do prêmio em dinheiro relatado, na versão original de Matheson a quantia era 50 mil (em 1970), na versão de Twilight Zone eram 200 mil (em 1985). Acredito que mudar para no mínimo um milhão de dólares condiz com a idéia que Chateaubriand ilustra nas palavras "ficar rico".

NOTA DE ESCOLHA DA VERSÃO: Conheço três versões da história que aqui escolhi divulgar. A original denominada "Button. button" de autoria de Richard Matheson, a adaptação para filme denominada "A caixa" e esta que transcrevi acima. Há também menção de que Matheson tenha se inspirado em François-René de Chateaubriand ("Genius of Christianity"(1802) que pergunta ao leitor o que ele faria se pudesse ficar rico mantando um mandarin na china exclusivamente pela força do pensamento. No que diz respeito as versões, cabe afirmar que o filme adiciona elementos em demasia, fazendo surgirem mistérios, superpoderes e teorias da conspiração - elementos que julgo contraprodutivos em relação ao foco central de reflexão da estória. Na versão de Matheson, diferente da aqui relatada, é o conjuge do personagem que aperta o botão que morre, com isso o personagem central reclama das premissas do acordo, que diziam que morreria alguém desconhecido ao que é respondido pelo propositor "você realmente acha que conhecia seu marido?". Embora essa versão também traga reflexões interessantes, acredito que ela perca um pouco o foco ao adicionar à questão da riqueza e morte do desconhecido uma questão epistemológica relativa ao conhecer ou não alguém. Assim, fica claro minha opção pela versão aqui relatada, que embora tenha sido mal vista por Matheson (que não gostou que alterassem o final relativo ao conhecer alguém), considero mais fiel ao ponto de reflexão de Chateaubriand.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma fábula de Rubem Alves sobre algumas virtudes do espírito

"Um lobo, tendo ouvido um sermão que São Francisco pregou aos bichos, converteu-se e resolveu tornar-se um santo também. Procurou os mestres espirituais e perguntou-lhes o que devia fazer para se tornar um santo. Eles lhe disseram que o caminho da santidade começa com as abstenções: ele deveria começar por abandonar aquelas coisas de que mais gostava. E o que ele mais gostava era comer cabritos. Assim, os mestres espirituais concluíram, o caminho de um lobo que deseja ser santo começa com um grande jejum até perder a vontade de comer cabritos. Saiu, então, o lobo, decidido a jejuar. Depois de muito caminhar sem nada comer, cabeça baixa e estômago faminto, viu repentinamente um cabrito que comia capim distraidamente na encosta da montanha. A visão do cabrito deu-lhe água na boca. Pensou então: acho que vou adiar o meu jejum por uns dias, até me acostumar. Aproximou-se, assim, solobeiramente (sorrateiramente só se aplica aos ratos) do cabrito. Este, percebendo a aproximação do lobo, correu, saltando sobre as rochas da montanha – era um cabrito montês – até atingir uma rocha muito alta inacessível ao lobo. O lobo, então, vendo que seu almoço lhe fugia, lembrou-se de suas intenções religiosas e argumentou consigo mesmo: “O caminho da santidade é o caminho do jejum”. E continuou a jejuar.

Moral da estória: muitas virtudes do espírito nascem da incompetência do corpo."

Reproduzi conforme se encontra no livro "Pensamentos que penso quando não estou pensando" (Rubem Alves), da minha parte preferiria trocar a palavra "muitas" da moral pela palavra "algumas" que usei no título do post, mesmo assim acho genial a fábula.


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