"Um estranho usando um sobretudo aparece a porta e propõe
um acordo ao homem que ali mora.
'Aqui está uma caixa com um único botão. Tudo o que você tem
a fazer é apertar o botão e eu lhe pagarei 1 milhão* de dólares'
'O que acontece quando eu aperto o botão?' pergunta o homem.
O estranho lhe responde ‘Quando você aperta o botão,
alguém muito longe, alguém que você não conhece, irá morrer."
O homem sofre um pouco com o dilema moral durante a
noite.
O botão permanece na mesa da cozinha. Ele olha para o botão.
Anda em círculos. O suor escorre por sua testa. Finalmente, após dar se conta
de sua situação financeira desesperadora, toma coragem e aperta o botão. Nada acontece.
Tudo está quieto, numa espécie de anti-clímax. Alguém bate a porta. O estranho
lá está em seu sobretudo, ele entrega ao homem o dinheiro e pega a caixa com o
botão.
'Espere' grita o homem. 'O que acontece agora?'
O estranho diz-lhe 'Agora eu levo a caixa e entrego para
a próxima pessoa. Alguém muito longe, algúem que não conhece você.'"
Trecho traduzido de Incognito: The Secret Lives of the Brain (2011), livro de David Eagleman.
* Troquei o valor do prêmio em dinheiro relatado, na
versão original de Matheson a quantia era 50 mil (em 1970), na versão de
Twilight Zone eram 200 mil (em 1985). Acredito que mudar para no mínimo um milhão
de dólares condiz com a idéia que Chateaubriand ilustra nas palavras
"ficar rico".
NOTA DE ESCOLHA DA VERSÃO: Conheço três versões da história que aqui escolhi divulgar. A original denominada "Button. button" de autoria de Richard Matheson, a adaptação para filme denominada "A caixa" e esta que transcrevi acima. Há também menção de que Matheson tenha se inspirado em François-René de Chateaubriand ("Genius of Christianity"(1802) que pergunta ao leitor o que ele faria se pudesse ficar rico mantando um mandarin na china exclusivamente pela força do pensamento. No que diz respeito as versões, cabe afirmar que o filme adiciona elementos em demasia, fazendo surgirem mistérios, superpoderes e teorias da conspiração - elementos que julgo contraprodutivos em relação ao foco central de reflexão da estória. Na versão de Matheson, diferente da aqui relatada, é o conjuge do personagem que aperta o botão que morre, com isso o personagem central reclama das premissas do acordo, que diziam que morreria alguém desconhecido ao que é respondido pelo propositor "você realmente acha que conhecia seu marido?". Embora essa versão também traga reflexões interessantes, acredito que ela perca um pouco o foco ao adicionar à questão da riqueza e morte do desconhecido uma questão epistemológica relativa ao conhecer ou não alguém. Assim, fica claro minha opção pela versão aqui relatada, que embora tenha sido mal vista por Matheson (que não gostou que alterassem o final relativo ao conhecer alguém), considero mais fiel ao ponto de reflexão de Chateaubriand.
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
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