terça-feira, 14 de julho de 2015

Objetividade e uma piada velha sobre racismo

Em seu polêmico livro Subliminal, Leonard Mlodinow reconta uma antiga piada sobre racismo como metáfora em relação a como os cérebro admite informações novas, eis a piada:

Um católico e um judeu - ambos brancos - e um homem negro se aproximam dos portões do paraíso. O católico diz:
- Eu fui um bom homem durante minha vida toda, mas sofri bastante discriminação por ser católico. O que devo fazer para entrar no céu?
- É fácil - disse Deus - tudo que você precisa fazer é soletrar uma palavra.
- E qual é a palavra?
- "Deus".
O católico acertou a palavra e entrou.
As mesma coisa acontece com o judeu, que soletra "Deus" e entra.
Por último o homem negro se aproxima e diz pratimente o mesmo:
- Eu fui um bom homem minha vida toda e sofri discriminação por ser negro.
E Deus lhe responde:
- Não se preocupe, aqui não há discriminação, para entrar todos precisam apenas soletrar uma palavra.
- E qual palavra devo soletrar?
- "Tchecoslováquia".

É interessante a metáfora usada por ele, para o autor, quando nos deparamos com uma cognição que contradiz um sistema de crenças que já possuímos temos uma dificuldade muito maior de aceita-la e, com isso, rever nosso sistema de crenças.

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Navios e disputas de ego, uma piada que virou lenda urbana.

Reproduzo aqui essa piada, que ao que tudo indica jamais aconteceu1, que diz respeito a uma conversa realizada por radio visando o deslocamento marinho. Há menção de que a piada data de 1932, mas não tive o trabalho de verificar tais fontes. Segue a piada:

"Conta-se que a seguinte conversa ocorreu via rádio entre um barco da marinha norte-americana e as autoridades canadianas:

Canadianos - Por favor desviem a vossa rota 15º para sul a fim de evitar colisão.

Americanos - Recomendamos que desviem a vossa rota 15º para norte a fim de evitar colisão.

Canadianos - Negativo. Têm de desviar a vossa rota 15º para sul a fim de evitar colisão.

Americanos - Este é o porta-aviões Lincoln, o segundo maior navio da frota americana! Estamos acompanhados por três destroyers, três cruisers e vários barcos de apoio! Exigimos que desviem a vossa rota 15º para norte, eu repito, um cinco graus para norte ou contra-medidas serão aplicadas para garantir a segurança do navio!

Canadianos - Isto é um farol. Decidam-se."

(Há inúmeras versões da piada, a que apresentei aqui foi tirada de:
http://www.aeiou.pt/humor/anedota/34321)

1 Discussões sobre a veracidade e a data das primeiras vezes que a piada foi divulgada podem ser encontradas em: http://www.e-farsas.com/conversa-de-radio-entre-navio-americano-e-farol-da-espanha.html

(Lembro que não é ideia deste blog promover ou criticar as identidades nacionais de quaisquer países, de forma que ao reproduzirmos a piada acima não queremos com isso falar bem ou mal de quaisquer nacionalidades, apenas promover a reflexão.)

Sobre amor e a solução de conflitos, uma história que me foi contada há muitos anos

A breve história que relato aqui me foi contada há muitos anos por um pastor protestante chamado Júlio, de quem não sei muito mais além do primeiro nome, mas a história fala por si só.

Como nos conta Júlio, ele havia se mudado para uma casa e sua vizinha, uma senhora de idade já bastante avançada, parecia não gostar nada dele, por motivo que ele desconhecia. Todos os dias, quando chegava em casa, havia, para seu espanto, um monte de lixo em seu quintal. Estranhado tal fato, ele conta que um dia passou o dia um pouco mais atento ao que ocorria no quintal pela janela e notou que a vizinha subia numa cadeira e virava um latão de lixo por cima do muro, jogando todo o lixo em seu quintal. Tendo notado isso, no dia seguinte, aproximadamente no mesmo horário ele deixou uma cadeira já bem próxima do muro e, quando notou que a vizinha subia de uma cadeira do outro lado do muro, subiu ele também sobre a cadeira e a viu olho no olho e disse-lhe: "Minha senhora, a senhora não pode fazer isso, ficar subindo nessa cadeira todos os dias. Isso é perigoso, você pode cair e se machucar. Façamos assim, de hoje em diante, todos os dias que a senhora quiser jogar o lixo em meu quintal a senhora toque a minha campainha que eu venho e jogo o lixo no meu quintal para a senhora." e após dizê-lo pegou o latão de lixo da mão da senhora e virou todo o conteúdo que havia nele sobre o próprio quintal. Segundo nos contou Júlio, nunca mais teve problemas com essa vizinha, com quem passou a se dar bem daí em diante.

Sobre mentir para os outros e para si mesmo, um trecho de Vladmir Safatle

Em seu livro Cinismo e falência da crítica (2008, p.74) Vladimir Safatle apresenta uma curta estória interessante para pensar a sinceridade e a mentira, porém não tive acesso a este autor. Reproduzo abaixo a metáfora apresentada por Safatle e as reflexões por ele propostas em relação a ela:

"É verdade que, contra a tentativa de restringir a sinceridade à mera repetição de sistemas socialmente codificados de significação de disposições de conduta, teríamos defesas astutas de um conceito intencional de sinceridade como a apresentada por Austin. Segundo ele, sem o recurso aos estados intencionais para a definição da significação do ato, nunca poderíamos estabelecer com segurança uma diferença entre “estar em um certo estado” e “fingir estar em um certo estado”. 

Por exemplo, dois ladrões são surpreendidos tentando serrar uma grade e, para disfarçar, fingem estar serrando uma árvore. Mas para que a simulação fique mais convincente, eles começam realmente a serrar uma árvore. Por que podemos dizer que, mesmo serrando a árvore,eles estão fingindo serrar uma árvore? De certa forma, porque a sinceridade é uma questão de estado intencional. Daí Austin poder dizer que “a essência do fingimento é que meu comportamento público tenciona esconder [disguise] alguma realidade, geralmente algum comportamento real”15. Ou seja, reencontramos aqui, novamente, um conceito intencional de sinceridade.

Mas podemos também insistir em outro ponto: só sei que estou diante de um caso de insinceridade porque posso estabelecer contradições entre um comportamento público e algo que Austin chama de “comportamento real”, e que nada mais é que uma forma de comportamento socialmente pressuposta como índice de um estado intencional determinado. Ou seja, dessa contradição entre consequências do ato e expectativas socialmente naturalizadas nasce o julgamento sobre a sinceridade. Não há aqui nenhum recurso a algo para além de expectativas de comportamento socialmente naturalizadas. 

Por exemplo, se estivéssemos diante de ladrões que passam anos serrando as árvores em volta da casa sem nunca tentar novamente serrar-lhe a grade, poderíamos começar a nos perguntar se estamos realmente diante de um caso de fingimento, já que nossas expectativas sociais não aceitam como plausível que alguém passe anos fingindo para roubar uma simples casa. Na verdade, poderíamos nos perguntar se os ladrões austinianos realmente “sabem o que fazem”, até porque o fingimento poderia ser apenas uma crença que funcionaria para encobrir, para o próprio sujeito, um outro “estado intencional” (algo como: “creio que estou fingindo à espera do melhor momento para o roubo, mas estou
na verdade usando o fingimento para adiar indefinidamente uma ação que não quero fazer”). Há situações em que aquilo que me aparece como meu estado intencional é tão opaco para mim quanto aquilo que me aparece como estado intencional de um outro." 

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

O país dos dedos gordos. Uma fábula de Rubem Alves

Rubem Alves é um grande cronista e contador de estórias. Isso mesmo estórias com "e". Alguém decidiu que essa palavra não existiria mais, mas apagar a diferença entre história e estória é um insulto, se você não sabe qual é sugiro que procure saber. A fábula que é uma crítica ao vestibular, não concordo integralmente com a crítica, mas a acho bastante interessante para um começo de reflexão. Ela pode ser encontrada no livro Estórias de quem gosta de ensinar (2000, p. 9). 

"Vivia num país distante e céu cor de anil, um povo pobre e feliz, que na sua pobreza tinha tempo e gosto para cantar, brincar, fazer versos e experimentar com aquelas artes e aquarelas ciências que faziam alegre o seu coração. Felizes também eram o rei e a rainha, amigos de todos e que esperavam, para completar sua felicidade, o nascimento de uma criança. Nasceu uma menina linda, mansa e fofa. Ah! Ela seria a mais bela, a mais feliz, a mais amada. E, para que nada lhe acontecesse, convidaram como madrinhas e padrinhos do batizado todas as fadas e magos do reino, que com seus encantamentos haveriam de envolver a criancinha com um círculo mágico protetor. Ignoraram, é claro, a bruxa malvada que vivia na floresta negra. 

Quando ela soube, pela leitura das colunas sociais, que havia sido desprezada, teve um acesso de cólera e jurou vingança. Mandou ao palácio seus corvos espiões: que verificassem se havia algum ponto vulnerável nos encantamentos que protegiam a princesinha. Voltaram desapontados: “O corpo da princesa está fechado. Nada de sério lhe pode ser feito. Só existe um lugarzinho. Esqueceram-se do dedo “seu vizinho”, da mão esquerda... 

A bruxa deu uma gargalhada: “Mais que suficiente. Jogarei uma praga que fará com que o rei e a rainha se arrependam pelo resto de suas vidas. Aquele dedinho vai engrossar, engrossar. E não haverá remédio que cure...” E assim foi. E a malvada ainda mandou dizer, por mensagem no bico de seus corvos-correio. O rei e a rainha foram tomados de grande aflição. Chamaram fadas e magos. Inutilmente bruxedo não se desfaz. Vieram médicos, cirurgiões plásticos, invocaram homeopatia, fizeram compressas de confrei, apelaram para o poder das pirâmides e a meditação transcendental. Em vão. Pobre princesinha. Seu dedinho virou dedão, grotesco e vermelhão. Não podia usar aquelas lindas luvas brancas. E nem os anéis reais. Também não podia tocar piano, violino ou violão. O dedão esbarrava e a nota desafinava. Chorava a pobre princesinha, inconsolável pelo "seu vizinho"... quem quereria se casar com uma jovem de dedo grosso? 

O rei, desesperado, chamou seus sábios e pediu conselho. Foi então, que um deles fez sensata ponderação! " Alteza, se não é possível fazer que o dedo da princesinha fique igual aos dedos dos outros, é possível fazer que os dedos dos outros fiquem iguais ao dedo da princesinha. Ao final, o resultado será o mesmo. Ninguém terá vergonha". 

O rei ficou encantado. E logo chamou os técnicos que foram encarregados de viabilizar a solução. O que se decidiu foi o seguinte: o rei promoverá, anualmente, um baile para qual todos os jovens do reino estão convidados. Infelizmente, nem todos poderão ser admitidos porque só há lugar para mil pares no salão de festas. Muitos serão os chamados, poucos os escolhidos. Mas estes serão regiamente recompensados: empregos públicos vitalícios. E um, dentre estes, será escolhido pela princesa, como marido, futuro rei. O critério para a admissão? Os mil que, dentre todos, tiverem os mais grossos "seu vizinho" da mão esquerda. Para que haja justiça, sem fraude, se colocarão orifícios eletrônicos no vestíbulo do palácio. Os moços enfiarão seus dedos, o computador dirá quantos pontos fizeram, se passaram ou não. 

E assim fez. Os arautos anunciaram a boanova. De repente o reino mudou. Todos ompreenderam que o futuro passava pelos vestibulares, e que só havia uma única coisa que importava: a grossura do "seu vizinho" da mão esquerda. Cessou a antiga alegria inconseqüente e descontraída. Os pais deixaram de prestar atenção nos risos para prestar atenção no dedo. E se gabavam: "Menino de futuro promissor; veja só o dedo, tão jovem e tão grosso..." As escolas passaram por revoluções. Os estabelecimentos antiquados, preocupados com sorrisos, viram-se repentinamente sem alunos. 

"Alegria não engrossa dedo", diziam os pais, categóricos, ao pagar sua última prestação. E as que progrediam eram aquelas que desde cedo introduziam as crianças na filosofia do dedo grosso. Música, literatura, brinquedos, as artes e as ciências que davam prazer foram todas aposentadas. O que importava era passar no vestibular e, no vestibular, só contava a grossura do dedo. 

E foi assim que se criou uma nova filosofia da educação, e coisas novas, cursinhos que viam tudo pelo Ângulo e segundo o Objetivo de engrossar os dedos. Os preços eram exorbitantes. Os pais trabalhavam horas extras, as viúvas lavavam mais roupas: "Pai não mede sacrifício para o bem de seu filho..." E de noite rezavam "Oh eus, ajuda o meu filho para que ele tenha disciplina e se aplique pra que o seu dedo engrosse..." 

Mas, ano vai ano vem, a mesma coisa acontecia. Só mil entravam. Os que ficavam de fora se punham a olhar para seus dedos grossos. Aquele era o resultado de anos de disciplina e privações. Será que adiantou? E pensavam nas coisas perdidas, nunca mais. Dedo grosso, inútil, gordo de abstenções e sacrifícios. As coisas que davam prazer haviam sido abandonadas e, agora, estavam sem o baile e sem o prazer. A suspeita era de que haviam sido vítimas de uma grande burla... A cada ano que passava, aumentava o número de jovens tristes. Nunca entrariam no baile. E o pior: estavam aleijados. O mundo se havia transformado num gigantesco dedo grosso. Era como se um pedaço da vida lhe tivesse sido roubado, irremediavelmente. O passado não se recupera. Por todo o País, a nuvem de tristeza. Os técnicos sugeriram que, talvez, com técnicas mais eficientes, a qualidade do ensino poderia ser melhorada. Dedos mais grossos, talvez... O único problema é que o tamanho do salão de bailes continuava o mesmo. 

Lá dentro, a situação não era melhor. A princesinha não se decidia sobre o seu eleito: "Pai, eles são tão chatos. Só sabem falar sobre dedos grossos. Preferiria um moço de dedo fino mas que fosse alegre e pudesse me alegrar..." 

O rei compreendeu, repentinamente, o tamanho de sua estupidez. Às vezes, o amor é cego e burro. Mandou seus arautos, de novo, País afora, dizendo que dali pra frente ninguém mais seria julgado pela grossura do dedo. O que importaria seria a alegria de viver. E, então, como que por encanto, o País acordou do seu feitiço. Ninguém mais procurava os cursinhos engrossa dedo, que tiveram de fechar suas portas. Os pais mudaram suas orações, pediam a Deus que fizessem alegres seus filhos, pararam de fiscalizar os seus dedos "seu vizinho", e iam às escolas para saber das coisas belas e gostosas que ali se faziam. Os poemas voltaram a ser lidos, os moços brincavam com suas flautas e violões sem dores de consciência, e das ciências e artes se dedicavam àquelas que lhes davam prazer. 

O salão de festas continuou do mesmo tamanho. Mas sua sombra sinistra já não mais enfeitiçava os anos de juventude. Mesmo os que ficavam de fora continuavam a sorrir, porque sabiam que inha valido a pena. O mundo ficara mais belo. O tempo não tinha sido perdido. O passado não tinha sido inútil. E o rei, olhando para a princesinha, feliz, cantarolava que o que importa é que cada um "da alegria seja aprendiz". E os moços tocavam seus instrumentos e dedilhavam as cordas. E não havia dedos gordos que atrapalhassem".

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Um provérbio chinês famoso

Não conheço a fonte, mas ouvi muitas vezes do sábio colega George Barcat, o seguinte provérbio chinês:

"Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo, o sábio olha para a lua."

Uma breve piada sobre diagnóstico

Conta-se que o sujeito chegou ao médico com a seguinte queixa: quando cutucava o abdómen com o dedo sentia dores, quando cutucava a coxa sentia dores, quando cutucava a bochecha, sentia dores. Estava desesperado. Perguntou ao médico "É grave doutor?" e o médico bastante atento a condição física dele logo concluiu "Não, fique tranquilo. Não é nada grave, você fraturou o dedo".

Afiando o machado - uma parábola sobre escolhas

A parábola que reproduzo abaixo é bem conhecida nos meios empresariais, não a encontrei em nenhum livro (embora acredite que deva constar e alguns deles), ouvi-a em alguma palestra da qual sequer me lembro mais. Para fins de precisão, reproduzo uma versão dela extraída de um post de Ari Lima (que pode ser encontrado na íntegra em https://www.algosobre.com.br/carreira/a-parabola-do-velho-lenhador.html). Segue a parábola:

"Certa vez, um velho lenhador, conhecido por sempre vencer os torneios que participava, foi desafiado por um outro lenhador jovem e forte para uma disputa. A competição chamou a atenção de todos os moradores da localidade. Muitos acreditavam que finalmente o velho perderia a condição de campeão dos lenhadores, em função da grande vantagem física do jovem desafiante.

No dia marcado, os dois competidores começaram a disputa, na qual o jovem se entregou com grande energia e convicto de que seria o novo campeão. De tempos em tempos olhava para o velho e, às vezes, percebia que ele estava sentado. Pensou que o adversário estava velho demais para a disputa, e continuou cortando lenha com todo vigor.

Ao final do prazo estipulado para a competição, foram medir a produtividade dos dois lenhadores e pasmem! O velho vencera novamente, por larga margem, aquele jovem e forte lenhador.

Intrigado, o moço questionou o velho:
- Não entendo, muitas das vezes quando eu olhei para o senhor, durante a competição, notei que estava sentando, descansando, e, no entanto, conseguiu cortar muito mais lenha do que eu, como pode!!
- Engano seu! Disse o velho. Quando você me via sentado, na verdade, eu estava amolando meu machado. E percebi que você usava muita força e obtinha pouco resultado."


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

Uma citação de José Saramago extraída do documentário Janela da Alma (2001)

No documentário Janela da Alma (2001), dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, há um trecho da entrevista com José Saramago muito memorável, reproduzo-o abaixo:

"Nunca me esqueci da visão que tive da coroa do Camarote Real, no Teatro em Lisboa. De longe, uma maravilha. Quando olhei por debaixo, repleta de sujeira, teias de aranha... e logo aprendi: Para conhecer as coisas, há que dar-lhes a volta."

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

Tradução de uma poesia de Victor Hugo

A poesia abaixo pode ser encontrada no livro Les contemplations de Victor Hugo, não encontrei versão traduzida para o português, motivo pelo qual coloco ao lado tradução minha. Busquei preservar em primeiro lugar o sentido das palavras, perdendo, muitas vezes, a rima e a métrica.

Ibo

Dites, pourquoi, dans l’insondable
Au mur d’airain,
Dans l’obscurité formidable
Du ciel serein,

Pourquoi, dans ce grand sanctuaire
Sourd et béni,
Pourquoi, sous l’immense suaire
De l’infini,

Enfouir vos lois éternelles
Et vos clartés ?
Vous savez bien que j’ai des ailes,
Ô vérités !

Pourquoi vous cachez-vous dans l’ombre
Qui nous confond ?
Pourquoi fuyez-vous l’homme sombre
Au vol profond ?

Que le mal détruise ou bâtisse,
Rampe ou soit roi,
Tu sais bien que j’irai, Justice,
J’irai vers toi !

Beauté sainte, Idéal qui germes
Chez les souffrants,
Toi par qui les esprits sont fermes
Et les coeurs grands,

Vous le savez, vous que j’adore,
Amour, Raison,
Qui vous levez comme l’aurore
Sur l’horizon,

Foi, ceinte d’un cercle d’étoiles,
Droit, bien de tous,
J’irai, Liberté qui te voiles,
J’irai vers vous !

Vous avez beau, sans fin, sans borne,
Lueurs de Dieu,
Habiter la profondeur morne
Du gouffre bleu,

Âme à l’abîme habituée
Dès le berceau,
Je n’ai pas peur de la nuée ;
Je suis oiseau.

Je suis oiseau comme cet être
Qu’Amos rêvait,
Que saint Marc voyait apparaître
À son chevet,

Qui mêlait sur sa tête fière,
Dans les rayons,
L’aile de l’aigle à la crinière
Des grands lions.

J’ai des ailes. J’aspire au faîte ;
Mon vol est sûr ;
J’ai des ailes pour la tempête
Et pour l’azur.

Je gravis les marches sans nombre.
Je veux savoir ;
Quand la science serait sombre
Comme le soir !

Vous savez bien que l’âme affronte
Ce noir degré,
Et que, si haut qu’il faut qu’on monte,
J’y monterai !

Vous savez bien que l’âme est forte
Et ne craint rien
Quand le souffle de Dieu l’emporte !
Vous savez bien

Que j’irai jusqu’aux bleus pilastres,
Et que mon pas,
Sur l’échelle qui monte aux astres,
Ne tremble pas !

L’homme, en cette époque agitée,
Sombre océan,
Doit faire comme Prométhée
Et comme Adam.

Il doit ravir au ciel austère
L’éternel feu ;
Conquérir son propre mystère,
Et voler Dieu.

L’homme a besoin, dans sa chaumière,
Des vents battu,
D’une loi qui soit sa lumière
Et sa vertu.

Toujours ignorance et misère !
L’homme en vain fuit,
Le sort le tient ; toujours la serre !
Toujours la nuit !

Il faut que le peuple s’arrache
Au dur décret,
Et qu’enfin ce grand martyr sache
Le grand secret !

Déjà l’amour, dans l’ère obscure
Qui va finir,
Dessine la vague figure
De l’avenir.

Les lois de nos destins sur terre,
Dieu les écrit ;
Et, si ces lois sont le mystère,
Je suis l’esprit.

Je suis celui que rien n’arrête,
Celui qui va,
Celui dont l’âme est toujours prête
À Jéhovah ;

Je suis le poëte farouche,
L’homme devoir,
Le souffle des douleurs, la bouche
Du clairon noir ;

Le rêveur qui sur ses registres
Met les vivants,
Qui mêle des strophes sinistres
Aux quatre vents ;

Le songeur ailé, l’âpre athlète
Au bras nerveux,
Et je traînerais la comète
Par les cheveux.

Donc, les lois de notre problème,
Je les aurai ;
J’irai vers elles, penseur blême,
Mage effaré !

Pourquoi cacher ces lois profondes ?
Rien n’est muré.
Dans vos flammes et dans vos ondes
Je passerai ;

J’irai lire la grande bible ;
J’entrerai nu
Jusqu’au tabernacle terrible
De l’inconnu,

Jusqu’au seuil de l’ombre et du vide,
Gouffres ouverts
Que garde la meute livide
Des noirs éclairs,

Jusqu’aux portes visionnaires
Du ciel sacré ;
Et, si vous aboyez, tonnerres,
Je rugirai.

Au dolmen de Rozel, janvier 1853.
Ibo

Diga, porque, dentro do insondável
Ao muro de bronze,
Dentro da obscuridade formidável,
Do céu sereno,

Porque, dentro de tal grande santuário,
Surdo e bendito,
Porque, sobre o imenso sudário,(manto)
Do infinito,

Enterrar vossas leis eternas
E vossas claridades?
Sabeis bem que eu tenho asas,
Ó verdades!

Por que se escondem nas sombras
Que confundo?
Porque vós afugentais o homem sombrio
Ao vôo profundo?

Que o mal destrói ou edifica,
Prostrado ou sendo  rei,
Tu sabes bem que eu irei, Justiça,
Ao teu encontro, eu irei!

Beleza santa, Ideal semeado
Naqueles que sofrem,
Tu por quem o espírito é fechado
E os corações grandes,

Tu os salvas, Tú que eu adoro,
Amor, Razão,
Que tu ergues como a aurora
Sobre o horizonte,

Fé, cercada de um círculo de estrelas,
Direito, apesar de tudo,
Eu irei, Liberdade que te velas,
Eu irei ao teu encontro,

Tu tens beleza, sem fim, sem limite,
Lampejos de Deus,
Habitar a profundeza triste,
Do abismo azul,

Alma ao abismo habituada
Desde o berço,
Eu não tenho medo da espessa nuvem;
Eu sou pássaro,

Eu sou pássaro como esse ser
Que Amós sonhava,
Que São Marcos via aparecer
À sua cabeceira,

Que mistura sobre sua cabeça orgulhosa,
Dentro dos trovões,
A asa da águia a cabeleira
Dos grandes leões.

Eu tenho asas,  eu aspiro ao topo;
Meu vôo é certo;
Eu tenho asas para tempestade
E para o céus azuis.

Eu escalo as trilhas sem nome.
Eu quero conhecer;
Quando a ciência será sombria
Como o entardecer!

Tu sabes bem que a alma afronta
Esse nível negro,
E que, se alto for preciso que suba,
Eu subirei!

Tu sabes bem que a alma é forte
E nenhum receio tem
Quando o sopro de Deus a toma!
Tu sabes bem

Que eu irei até as azuis pilastras,
E que o não meu,
Sobre a escala que sobe aos astros,
Nunca tremeu!

O homem, nessa época agitada,
Sombrio oceano,
Deve fazer como Prometeu,
E como Adão,

Ele deve subir (êxtase) ao céu austero
O eterno fogo,
Conquistar seu próprio mistério,
E roubar Deus,

O homem tem necessidade, em seu chalé,
Pelos ventos abatido,
De uma lei que seja sua luz,
E sua virtude.

Sempre ignorância e miséria!
O homem em vão foge,
A sorte o tem; sempre  a prensa!
Sempre a noite!

É preciso que as pessoas se arrastem
Ao duro decreto,
E que enfim esse grande mártir saiba
O grande segredo!

Desde já o amor, na era obscura
Que vai acabar,
Desenha a vaga figura,
Do porvir,

As leis de nossos destinos na terra,
Deus as escreveu;
E, se essas leis são o mistério,
Eu sou o espírito.

Eu sou aquele que nada impede,
Aquele que vai,
Aquele cuja alma está sempre pronta
À Jeová:

Eu sou o poeta selvagem (silvestre),
O dever humano,
O sopro das dores, a boca
Do clarim negro ;

O sonhador que sobre seus registros
Põe os vivos,
Que mistura as estrofes sinistras
Aos quatro ventos;

O pensador alado, o atleta rigoroso
De braços fortes,
E eu arrastarei o cometa
Pelos cabelos.

Por isso, as leis de nosso problema,
Eu as terei:
Eu irei ao encontro delas,  pensador abatido (pálido)
Mago assustado!

Porque esconder essas leis profundas?
Nada é murado.
Por suas chamas e suas ondas
Eu passarei;

Eu lerei a grande bíblia;
Eu entrarei nú
Até o tabernáculo terrível
Do desconhecido,

Até o limite da sombra e do vazio,
Cavernas abertas
Que guardam hordas lívidas
De negros relâmpagos (insights)

Até as portas visionárias
Do céu sagrado;
E, se tu latires, trovões,
Eu rugirei.

Em dolmen de Rozel, janeiro 1853

O mosteiro e a seca - Um conto e três finais alternativos

O conto "O mosteiro e a seca" pode ser lido na integra no livro Contos Filosóficos do Mundo Inteiro de Jean-Claude Carrière (p. 32).  Aqui prefiro trazê-lo de maneira resumida explorando, além dele, três possibilidades de terminá-lo de maneira diferente. Vamos ao conto:

Há muito tempo atrás, havia um mosteiro de grandes dimensões e cujos monges eram extremamente eficientes, plantavam, criavam animais e sempre podiam fazer estoques para tempos de vacas magras. Eis que veio um período de grande seca naquela região. Após alguns meses, uma quinzena de camponeses emagrecidos pela fome veio ao mosteiro e pediu ajuda. Os monges os alimentaram e os deram alguns mantimentos. No dia seguinte, vieram cinquenta, todos foram alimentados. No próximo dia, eram mais de cem e mais uma vez os amáveis monges os alimentaram. No quinto dia, os famintos já eram quase mil e, daí em diante, os monges desistiram de contá-los. A situação continuou a mesma, a cada dia com mais famintos à porta do mosteiro. Até que, um dia, os famintos eram tantos que acabaram por comer tudo o que os monges haviam estocado. No dia seguinte, quando nada mais restava, os famintos cozeram e comeram os monges.

O conto termina aí, não que seu conteúdo já não fale por si só e nos leve a algumas reflexões, mas há três finais que se poderia acrescentar ao conto.

Final 1:
E nos meses seguintes os famintos comeram uns aos outros, até que não sobrou mais ninguém.

Final 2:
E no dia seguinte voltou a chover e todos, exceto os monges, sobreviveram a seca.

Final 3:
E nos meses seguintes os famintos comeram uns aos outros, até que não sobrou mais ninguém, exceto os residentes de um outro mosteiro ali perto que também tinham muitos estoques, mas jamais deram de comer aos famintos, nem sequer deixaram que alguém ficasse sabendo de seus estoques.


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Machado roubado - uma anedota sobre o suspeitar por Jean-Claude Carrière

"Lao-Tse conta que, um dia, um camponês perdeu seu machado. Ele o procurou, mas em vão. Então percebeu um dos vizinhos, que passava evitando seu olhar, e imediatamente suspeitou de que ele tivesse roubado seu machado.

O homem com efeito, tinha o comportamento de um ladrão de machado. seu rosto, usa expressão, sua atitude, seus gestos, as palavras que pronunciava, tudo revelava nele, sem a menos sombra de dúvida, um ladrão de machado.

O camponês estava a ponto de denunciá-lo, de acusá-lo publicamente e levá-lo diante de um juiz, quando encontrou seu machado, que tinha caído num mato, não longe dali.

Quando reviu o vizinho, este não apresentava o menor indício que pudesse evocar nele um ladrão de machado."

De Jean-Claude Carrière em sua ótima coletânea Contos filosóficos do mundo inteiro (2008, p.36).

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu sei que não sou um grão de milho - Anedota contada por Zizek

Mais uma piada muito interessante do ponto de vista reflexivo contada por Zizek em seu livro Como ler lacan (2006, p.115). Segue:

"Um homem que acredita ser um grão de milho* é levado para um hospital psiquiátrico onde os médicos fazem o que podem para convencê-lo de que ele não é um grão de milho, mas um homem. Quando ele está curado (convencido de que não é um grão de milho, mas um homem) e lhe permitem deixar o hospital, imediatamente volta tremendo. Há uma galinha perto da porta e ele tem medo de que ela vá comê-lo. 'Meu caro rapaz", diz o médico, 'você sabe muito bem que não é um grão de milho, mas um homem'. 'Claro que eu sei disso", responde o paciente, 'mas a galinha sabe?'"

*Na tradução original que consultei consta "grão de semente", mas optei por substituir por "grão de milho".


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O psicólogo e o jacaré - uma anedota contada por Wanderley Codo

"Um cliente chega à clínica do psicólogo se dizendo impossibilitado de dormir.
- É que há um jacaré embaixo da minha cama, doutor, pronto para me engolir assim que eu fechar os olhos.
O diagnóstico foi rápido, paranóia; o tratamento começou logo. Meses depois é a esposa daquele cliente que chama ao telefone:
- Doutor, pode desmarcar a consulta que meu marido tem hoje, ele não irá mais.
- Conseguiu dormir? Não pensa mais em um jacaré a perseguí-lo?
- Não, o senhor o convenceu que o jacaré não existia, ele dormiu e o jacaré o comeu."

Anedota extraída do livro O trabalho enlouquece: um enconrto entre a clínica e o trabalho, organizado por Wanderley Codo, (p. 7, Vozes, ed. 2004)

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