Rubem Alves é um grande cronista e contador de estórias. Isso mesmo estórias com "e". Alguém decidiu que essa palavra não existiria mais, mas apagar a diferença entre história e estória é um insulto, se você não sabe qual é sugiro que procure saber. A fábula que é uma crítica ao vestibular, não concordo integralmente com a crítica, mas a acho bastante interessante para um começo de reflexão. Ela pode ser encontrada no livro Estórias de quem gosta de ensinar (2000, p. 9).
"Vivia num país distante e céu cor de anil,
um povo pobre e feliz, que na sua pobreza
tinha tempo e gosto para cantar, brincar,
fazer versos e experimentar com aquelas
artes e aquarelas ciências que faziam
alegre o seu coração. Felizes também
eram o rei e a rainha, amigos de todos e
que esperavam, para completar sua
felicidade, o nascimento de uma criança.
Nasceu uma menina linda, mansa e fofa.
Ah! Ela seria a mais bela, a mais feliz, a
mais amada. E, para que nada lhe
acontecesse, convidaram como madrinhas
e padrinhos do batizado todas as fadas e
magos do reino, que com seus
encantamentos haveriam de envolver a
criancinha com um círculo mágico protetor.
Ignoraram, é claro, a bruxa malvada que
vivia na floresta negra.
Quando ela soube, pela leitura das colunas
sociais, que havia sido desprezada, teve
um acesso de cólera e jurou vingança.
Mandou ao palácio seus corvos espiões:
que verificassem se havia algum ponto
vulnerável nos encantamentos que
protegiam a princesinha. Voltaram
desapontados: “O corpo da princesa está
fechado. Nada de sério lhe pode ser feito.
Só existe um lugarzinho. Esqueceram-se
do dedo “seu vizinho”, da mão esquerda...
A bruxa deu uma gargalhada: “Mais que
suficiente. Jogarei uma praga que fará com
que o rei e a rainha se arrependam pelo
resto de suas vidas. Aquele dedinho vai
engrossar, engrossar. E não haverá
remédio que cure...”
E assim foi. E a malvada ainda mandou
dizer, por mensagem no bico de seus
corvos-correio. O rei e a rainha foram
tomados de grande aflição. Chamaram
fadas e magos. Inutilmente bruxedo não se
desfaz. Vieram médicos, cirurgiões
plásticos, invocaram homeopatia, fizeram
compressas de confrei, apelaram para o
poder das pirâmides e a meditação
transcendental. Em vão. Pobre princesinha.
Seu dedinho virou dedão, grotesco e
vermelhão. Não podia usar aquelas lindas
luvas brancas. E nem os anéis reais.
Também não podia tocar piano, violino ou
violão. O dedão esbarrava e a nota
desafinava. Chorava a pobre princesinha,
inconsolável pelo "seu vizinho"... quem
quereria se casar com uma jovem de dedo grosso?
O rei, desesperado, chamou seus sábios e
pediu conselho. Foi então, que um deles
fez sensata ponderação! " Alteza, se não é
possível fazer que o dedo da princesinha
fique igual aos dedos dos outros, é possível
fazer que os dedos dos outros fiquem
iguais ao dedo da princesinha. Ao final, o
resultado será o mesmo. Ninguém terá
vergonha".
O rei ficou encantado. E logo chamou os
técnicos que foram encarregados de
viabilizar a solução. O que se decidiu foi o
seguinte: o rei promoverá, anualmente, um
baile para qual todos os jovens do reino
estão convidados. Infelizmente, nem todos
poderão ser admitidos porque só há lugar
para mil pares no salão de festas. Muitos
serão os chamados, poucos os escolhidos.
Mas estes serão regiamente
recompensados: empregos públicos
vitalícios. E um, dentre estes, será
escolhido pela princesa, como marido,
futuro rei. O critério para a admissão? Os
mil que, dentre todos, tiverem os mais
grossos "seu vizinho" da mão esquerda.
Para que haja justiça, sem fraude, se
colocarão orifícios eletrônicos no vestíbulo
do palácio. Os moços enfiarão seus dedos,
o computador dirá quantos pontos fizeram,
se passaram ou não.
E assim fez. Os arautos anunciaram a boanova.
De repente o reino mudou. Todos
ompreenderam que o futuro passava
pelos vestibulares, e que só havia uma
única coisa que importava: a grossura do
"seu vizinho" da mão esquerda. Cessou a
antiga alegria inconseqüente e
descontraída. Os pais deixaram de prestar
atenção nos risos para prestar atenção no
dedo. E se gabavam: "Menino de futuro
promissor; veja só o dedo, tão jovem e tão
grosso..." As escolas passaram por
revoluções. Os estabelecimentos
antiquados, preocupados com sorrisos,
viram-se repentinamente sem alunos.
"Alegria não engrossa dedo", diziam os
pais, categóricos, ao pagar sua última
prestação. E as que progrediam eram
aquelas que desde cedo introduziam as
crianças na filosofia do dedo grosso.
Música, literatura, brinquedos, as artes e as
ciências que davam prazer foram todas
aposentadas. O que importava era passar
no vestibular e, no vestibular, só contava a
grossura do dedo.
E foi assim que se criou uma nova filosofia
da educação, e coisas novas, cursinhos
que viam tudo pelo Ângulo e segundo o
Objetivo de engrossar os dedos. Os preços
eram exorbitantes. Os pais trabalhavam
horas extras, as viúvas lavavam mais
roupas: "Pai não mede sacrifício para o
bem de seu filho..." E de noite rezavam "Oh
eus, ajuda o meu filho para que ele tenha
disciplina e se aplique pra que o seu dedo
engrosse..."
Mas, ano vai ano vem, a mesma coisa
acontecia. Só mil entravam. Os que
ficavam de fora se punham a olhar para
seus dedos grossos. Aquele era o
resultado de anos de disciplina e privações.
Será que adiantou? E pensavam nas
coisas perdidas, nunca mais. Dedo grosso,
inútil, gordo de abstenções e sacrifícios. As
coisas que davam prazer haviam sido
abandonadas e, agora, estavam sem o
baile e sem o prazer. A suspeita era de que
haviam sido vítimas de uma grande burla...
A cada ano que passava, aumentava o
número de jovens tristes. Nunca entrariam
no baile. E o pior: estavam aleijados. O
mundo se havia transformado num
gigantesco dedo grosso. Era como se um
pedaço da vida lhe tivesse sido roubado,
irremediavelmente. O passado não se
recupera. Por todo o País, a nuvem de
tristeza. Os técnicos sugeriram que, talvez,
com técnicas mais eficientes, a qualidade
do ensino poderia ser melhorada. Dedos
mais grossos, talvez... O único problema é
que o tamanho do salão de bailes
continuava o mesmo.
Lá dentro, a situação não era melhor. A princesinha não se decidia sobre o seu
eleito: "Pai, eles são tão chatos. Só sabem
falar sobre dedos grossos. Preferiria um
moço de dedo fino mas que fosse alegre e
pudesse me alegrar..."
O rei compreendeu, repentinamente, o
tamanho de sua estupidez. Às vezes, o
amor é cego e burro. Mandou seus arautos,
de novo, País afora, dizendo que dali pra
frente ninguém mais seria julgado pela
grossura do dedo. O que importaria seria a
alegria de viver. E, então, como que por
encanto, o País acordou do seu feitiço.
Ninguém mais procurava os cursinhos
engrossa dedo, que tiveram de fechar suas
portas. Os pais mudaram suas orações,
pediam a Deus que fizessem alegres seus
filhos, pararam de fiscalizar os seus dedos
"seu vizinho", e iam às escolas para saber
das coisas belas e gostosas que ali se
faziam. Os poemas voltaram a ser lidos, os
moços brincavam com suas flautas e
violões sem dores de consciência, e das
ciências e artes se dedicavam àquelas que
lhes davam prazer.
O salão de festas continuou do mesmo
tamanho. Mas sua sombra sinistra já não
mais enfeitiçava os anos de juventude.
Mesmo os que ficavam de fora
continuavam a sorrir, porque sabiam que
inha valido a pena. O mundo ficara mais
belo. O tempo não tinha sido perdido. O
passado não tinha sido inútil. E o rei,
olhando para a princesinha, feliz,
cantarolava que o que importa é que cada
um "da alegria seja aprendiz".
E os moços tocavam seus instrumentos e
dedilhavam as cordas. E não havia dedos
gordos que atrapalhassem".
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)
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