quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobre mentir para os outros e para si mesmo, um trecho de Vladmir Safatle

Em seu livro Cinismo e falência da crítica (2008, p.74) Vladimir Safatle apresenta uma curta estória interessante para pensar a sinceridade e a mentira, porém não tive acesso a este autor. Reproduzo abaixo a metáfora apresentada por Safatle e as reflexões por ele propostas em relação a ela:

"É verdade que, contra a tentativa de restringir a sinceridade à mera repetição de sistemas socialmente codificados de significação de disposições de conduta, teríamos defesas astutas de um conceito intencional de sinceridade como a apresentada por Austin. Segundo ele, sem o recurso aos estados intencionais para a definição da significação do ato, nunca poderíamos estabelecer com segurança uma diferença entre “estar em um certo estado” e “fingir estar em um certo estado”. 

Por exemplo, dois ladrões são surpreendidos tentando serrar uma grade e, para disfarçar, fingem estar serrando uma árvore. Mas para que a simulação fique mais convincente, eles começam realmente a serrar uma árvore. Por que podemos dizer que, mesmo serrando a árvore,eles estão fingindo serrar uma árvore? De certa forma, porque a sinceridade é uma questão de estado intencional. Daí Austin poder dizer que “a essência do fingimento é que meu comportamento público tenciona esconder [disguise] alguma realidade, geralmente algum comportamento real”15. Ou seja, reencontramos aqui, novamente, um conceito intencional de sinceridade.

Mas podemos também insistir em outro ponto: só sei que estou diante de um caso de insinceridade porque posso estabelecer contradições entre um comportamento público e algo que Austin chama de “comportamento real”, e que nada mais é que uma forma de comportamento socialmente pressuposta como índice de um estado intencional determinado. Ou seja, dessa contradição entre consequências do ato e expectativas socialmente naturalizadas nasce o julgamento sobre a sinceridade. Não há aqui nenhum recurso a algo para além de expectativas de comportamento socialmente naturalizadas. 

Por exemplo, se estivéssemos diante de ladrões que passam anos serrando as árvores em volta da casa sem nunca tentar novamente serrar-lhe a grade, poderíamos começar a nos perguntar se estamos realmente diante de um caso de fingimento, já que nossas expectativas sociais não aceitam como plausível que alguém passe anos fingindo para roubar uma simples casa. Na verdade, poderíamos nos perguntar se os ladrões austinianos realmente “sabem o que fazem”, até porque o fingimento poderia ser apenas uma crença que funcionaria para encobrir, para o próprio sujeito, um outro “estado intencional” (algo como: “creio que estou fingindo à espera do melhor momento para o roubo, mas estou
na verdade usando o fingimento para adiar indefinidamente uma ação que não quero fazer”). Há situações em que aquilo que me aparece como meu estado intencional é tão opaco para mim quanto aquilo que me aparece como estado intencional de um outro." 

(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

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