segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Neve rosa: um conto sobre intolerância

Dizem que na Rússia, adolescentes gays estavam sendo agredidos por grupos homofóbicos. Quando identificavam um garoto ou garota gay, os tais grupos o cercavam, insultavam, traziam urina e fezes em recipientes e despejavam sobre suas cabeças. Outras vezes os agrediam fisicamente: socos, ponta pés, pancadas com pedaços de pau. Alguns diziam que houve até casos em que apertaram-lhes os mamilos com alicates. Foi nessa época que Omar migrou para a Rússia.

Omar era filho de pai francês e mãe paquistanesa, passara parte de sua infância migrando entre vários países. Vivera muitos anos no oriente médio, alguns na Europa. Sempre se admirou com a forma como alguns de seus colegas estavam dispostos a entregar suas vidas pelo que acreditavam, uns pacificamente, outros nem tanto.

Viveu sua vida toda de um país a outro, sem qualquer autonomia nessas escolhas, mesmo seus pais eram obrigados a mudar de país por conta de suas profissões, jamais lhes permitiam escolher. Omar não conseguiu fazer amigos por longo prazo, nunca conseguia se sentir aceito, era estrangeiro onde quer que estivesse. Mesmo quando passou uns poucos anos no país em que nasceu não compreendia a cultura dali, não era aceito, não era visto como um igual. Não sabia quem era, não sabia a quem chamar de “seus”. Tinha apenas a seu pai e sua mãe que estavam constantemente ocupados. Mais dia, menos dia, lá estava ele novamente numa nova sala de aula onde não compreendia sequer o idioma que o cercava. O espreitavam, riam-se de suas roupas, riam-se de sua postura, faziam chacotas de seus mais profundos sentimentos, incomodavam-no e sequer o deixavam quieto quando buscava isolamento.

No tempo em que esteve na Europa aprendeu algumas coisas. Encontrou um ou outro amigo com quem podia agir naturalmente. Descobriu que ocasiões em que não precisava fingir ser o que não era, não precisava controlar obcessivamente cada um de seus gestos para que não parecessem femininos. Descobriu que não era responsável pelo tipo de atração sexual que sentia ou deixava de sentir.  Mas durou muito pouco. Sem direito a réplica, lá estava Omar, numa sala fria, roupas para suportar a neve, cercado de colegas a quem mais uma vez não conseguia se integrar.


Rússia. Lá mais uma vez o rotularam, onde quer que entrasse, com ele ia uma placa invisível da qual todos faziam chacota, a placa dizia “Omar é gay”. Dia após dia sofria agressões, até o dia em que decidiu por um fim nisso. Era uma segunda-feira cinza. Omar sabia que um grupo o esperava sair da escola para agredi-lo. Naquele dia não estava nervoso, caminhara solenemente até a praça onde pegava o ônibus. Foi ali que o cercaram. Omar recebeu todos com um sorriso. Convidava aqueles entre os passantes abertamente para sua festa, gritava a todos os cantos “Venham me agredir, afinal eu sou gay”. Após uns 5 minutos de alarde, entre alguns empurrões e ponta pés, havia aglomerado aproximadamente 30 adolescentes ao seu redor, todos o insultando. Foi ali, na parte mais alta da praça, o chão recoberto de neve, que Omar proferiu seu veredito. Omar gritou alto. Disse-lhes: a vocês, ícones da intolerância, eu brindo com sua tão aclamada intolerância. Retirou de seu bolso um dispositivo pequeno com um botão no meio, abriu a camisa e lá estava um colete carregado de dinamites. Omar apertou o botão.  Por muitos dias os que passavam pela praça viam apenas a neve rosa e choravam descontroladamente.

[Conto fictício escrito por mim tendo em vista as recentes manifestações de homofobia na Rússia]

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