Dizem que na Rússia, adolescentes gays estavam sendo
agredidos por grupos homofóbicos. Quando identificavam um garoto ou garota gay,
os tais grupos o cercavam, insultavam, traziam urina e fezes em recipientes e
despejavam sobre suas cabeças. Outras vezes os agrediam fisicamente: socos,
ponta pés, pancadas com pedaços de pau. Alguns diziam que houve até casos em
que apertaram-lhes os mamilos com alicates. Foi nessa época que Omar migrou
para a Rússia.
Omar era filho de pai francês e mãe paquistanesa, passara
parte de sua infância migrando entre vários países. Vivera muitos anos no
oriente médio, alguns na Europa. Sempre se admirou com a forma como alguns de
seus colegas estavam dispostos a entregar suas vidas pelo que acreditavam, uns
pacificamente, outros nem tanto.
Viveu sua vida toda de um país a outro, sem qualquer
autonomia nessas escolhas, mesmo seus pais eram obrigados a mudar de país por
conta de suas profissões, jamais lhes permitiam escolher. Omar não conseguiu fazer
amigos por longo prazo, nunca conseguia se sentir aceito, era estrangeiro onde
quer que estivesse. Mesmo quando passou uns poucos anos no país em que nasceu
não compreendia a cultura dali, não era aceito, não era visto como um igual. Não
sabia quem era, não sabia a quem chamar de “seus”. Tinha apenas a seu pai e sua
mãe que estavam constantemente ocupados. Mais dia, menos dia, lá estava ele
novamente numa nova sala de aula onde não compreendia sequer o idioma que o
cercava. O espreitavam, riam-se de suas roupas, riam-se de sua postura, faziam
chacotas de seus mais profundos sentimentos, incomodavam-no e sequer o deixavam
quieto quando buscava isolamento.
No tempo em que esteve na Europa aprendeu algumas coisas.
Encontrou um ou outro amigo com quem podia agir naturalmente. Descobriu que ocasiões
em que não precisava fingir ser o que não era, não precisava controlar
obcessivamente cada um de seus gestos para que não parecessem femininos.
Descobriu que não era responsável pelo tipo de atração sexual que sentia ou
deixava de sentir. Mas durou muito
pouco. Sem direito a réplica, lá estava Omar, numa sala fria, roupas para
suportar a neve, cercado de colegas a quem mais uma vez não conseguia se
integrar.
Rússia. Lá mais uma vez o rotularam, onde quer que entrasse,
com ele ia uma placa invisível da qual todos faziam chacota, a placa dizia “Omar
é gay”. Dia após dia sofria agressões, até o dia em que decidiu por um fim
nisso. Era uma segunda-feira cinza. Omar sabia que um grupo o esperava sair da
escola para agredi-lo. Naquele dia não estava nervoso, caminhara solenemente
até a praça onde pegava o ônibus. Foi ali que o cercaram. Omar recebeu todos
com um sorriso. Convidava aqueles entre os passantes abertamente para sua
festa, gritava a todos os cantos “Venham me agredir, afinal eu sou gay”. Após
uns 5 minutos de alarde, entre alguns empurrões e ponta pés, havia aglomerado
aproximadamente 30 adolescentes ao seu redor, todos o insultando. Foi ali, na
parte mais alta da praça, o chão recoberto de neve, que Omar proferiu seu
veredito. Omar gritou alto. Disse-lhes: a vocês, ícones da intolerância, eu
brindo com sua tão aclamada intolerância. Retirou de seu bolso um dispositivo
pequeno com um botão no meio, abriu a camisa e lá estava um colete carregado de
dinamites. Omar apertou o botão. Por
muitos dias os que passavam pela praça viam apenas a neve rosa e choravam
descontroladamente.
[Conto fictício escrito por mim tendo em vista as recentes manifestações de homofobia na Rússia]
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