sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma fábula de Rubem Alves sobre algumas virtudes do espírito

"Um lobo, tendo ouvido um sermão que São Francisco pregou aos bichos, converteu-se e resolveu tornar-se um santo também. Procurou os mestres espirituais e perguntou-lhes o que devia fazer para se tornar um santo. Eles lhe disseram que o caminho da santidade começa com as abstenções: ele deveria começar por abandonar aquelas coisas de que mais gostava. E o que ele mais gostava era comer cabritos. Assim, os mestres espirituais concluíram, o caminho de um lobo que deseja ser santo começa com um grande jejum até perder a vontade de comer cabritos. Saiu, então, o lobo, decidido a jejuar. Depois de muito caminhar sem nada comer, cabeça baixa e estômago faminto, viu repentinamente um cabrito que comia capim distraidamente na encosta da montanha. A visão do cabrito deu-lhe água na boca. Pensou então: acho que vou adiar o meu jejum por uns dias, até me acostumar. Aproximou-se, assim, solobeiramente (sorrateiramente só se aplica aos ratos) do cabrito. Este, percebendo a aproximação do lobo, correu, saltando sobre as rochas da montanha – era um cabrito montês – até atingir uma rocha muito alta inacessível ao lobo. O lobo, então, vendo que seu almoço lhe fugia, lembrou-se de suas intenções religiosas e argumentou consigo mesmo: “O caminho da santidade é o caminho do jejum”. E continuou a jejuar.

Moral da estória: muitas virtudes do espírito nascem da incompetência do corpo."

Reproduzi conforme se encontra no livro "Pensamentos que penso quando não estou pensando" (Rubem Alves), da minha parte preferiria trocar a palavra "muitas" da moral pela palavra "algumas" que usei no título do post, mesmo assim acho genial a fábula.


(Lembro que a ideia deste blog é promover e compartilhar conteúdos escritos que julgo interessantes, seja pela criatividade, pela beleza estética, pela possibilidade de gerar reflexões, entre outros. Com isso é importante lembrar que a citação de autores aqui não deve ser entendida como concordância com posicionamento desses autores, e sim como uma proposta de gerar reflexão sobre os conteúdos apresentados tanto nos contexto original como em quaisquer outros contextos a que os textos, como parábolas, metáforas ou de qualquer outra forma possam promover reflexão)

Um comentário:

  1. Infelizmente isso acontece muito, mas esse tipo de santidade não é santidade, é falta de escolha. É a motivação errada... No dia que você consegue dizer não, podendo dizer sim, é uma sensação espetacular... Dói, mas é bom! Não existe nada melhor!

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